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Anatomia da eliminação: imagens mostram como o Brasil desmoronou após mudanças de Carlo Ancelotti

Até os 66 minutos, a Seleção criava as melhores chances e controlava Haaland. As entradas de Neymar, Danilo Santos e Éderson mudaram o jogo e abriram caminho para a vitória da Noruega.

Brasil x Noruega - Melhores Momentos

Brasil x Noruega – Melhores Momentos

O Brasil junta os cacos após mais uma eliminação na Copa do Mundo, dessa vez com derrota de 2 a 1 para a Noruega. A sexta queda seguida para uma seleção europeia em Copas deixa o time de Carlo Ancelotti com a pior classificação desde 1990, quando caiu para a Argentina também nas oitavas de final.

"Brasil paga por um ciclo sem vergonha"

“Brasil paga por um ciclo sem vergonha”

O que houve? De quem é a culpa? E se Bruno Guimarães tivesse acertado o pênalti? Ou Endrick aquela bola?

Ao rever o jogo de cabeça fria, fica claro como o Brasil era melhor que a Noruega até os 66 minutos de jogo. Foi quando Carlo Ancelotti decidiu fazer duas alterações que desmontaram taticamente a seleção e deram espaço para Haaland fazer dois gols em dez minutos.

Carlo Ancelotti Brasil x Noruega Seleção — Foto: Odd Andersen/AFP

Carlo Ancelotti Brasil x Noruega Seleção — Foto: Odd Andersen/AFP

Primeiro tempo: sem pressionar alto, Brasil cria as melhores chances

O primeiro tempo teve mais posse de bola dos noruegueses. O Brasil jogou num 4-4-2 com Cunha e Vini Jr na frente e Martinelli na esquerda. A ideia era deixar a Noruega com a bola e explorar contra-ataques. A estratégia causou estranheza pela postura recuada, mas quem teve as melhores chances foi o Brasil:

  • 15′: Rayan invade a área pela direita e finaliza para fora.
  • 17′: Martinelli aparece livre na segunda trave, mas não consegue completar de cabeça.
  • 30′: Martinelli cruza rasteiro, Danilo chega na área, mas fura na finalização.
  • 40′: Vinícius rouba a bola, invade a área e obriga Nyland a fazer grande defesa.
Ancelotti explica postura da Seleção contra a Noruega

Ancelotti explica postura da Seleção contra a Noruega

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A Noruega circulava a bola, mas criava pouco. Ødegaard levou perigo em chute de fora da área aos 34 minutos, e Haaland pouco tocava na bola. O jogo estava controlado.

Segundo tempo: Brasil mais recuado, mas com mais contra-ataques

Com Endrick no lugar de Matheus Cunha cerca de 12 minutos depois do segundo tempo começar, o Brasil se encolheu mais. A aposta era mesmo o contra-ataque, como melhor oportunidade do jogo: Endrick perdendo na cara do gol, aos 58 minutos de jogo.

Até os 65 minutos, Haaland quase não participava. Tinha apenas uma finalização e poucos toques na bola. O Brasil seguia compacto, com Rayan e Martinelli fechando os corredores, Bruno Guimarães pressionando por dentro e Casemiro protegendo a entrada da área. A imagem mostra a formação.

Brasil teve menos posse de bola, mas criava as melhores chances do jogo — Foto: Reprodução

Brasil teve menos posse de bola, mas criava as melhores chances do jogo — Foto: Reprodução

67 minutos: duas mudanças e novo esquema tático

Aos 67”, Ancelotti tirou Rayan e Martinelli para colocar Neymar e Danilo Santos. Logo depois, a partida parou para hidratação. Logo quando os jogadores se reúnem, Carlo Ancelotti levanta e exibe um campinho tático com o time em amarelo numa formação 4-3-3.

Ancelotti mostra campinho com o Brasil no 4-3-3 — Foto: Reprodução

Ancelotti mostra campinho com o Brasil no 4-3-3 — Foto: Reprodução

70 minutos: Brasil joga com Neymar de falso nove, mas perde compactação na defesa.

Após a parada para hidratação, o jogo recomeça e dá para ver o dedo de Ancelotti: Neymar entra como falso nove, com a missão de buscar a bola e criar. Vini e Endrick ficam bem abertos pelos lados, mas entram na área com os volantes para atacar. As mudanças sinalizavam um Brasil mais ofensivo e com mais posse no jogo.

Neymar entrou como falso nove, com Vini e Endrick bem abertos — Foto: Reprodução

Neymar entrou como falso nove, com Vini e Endrick bem abertos — Foto: Reprodução

Os problemas começaram justamente no novo esquema tático, que não foi testado em nenhuma vez por Ancelotti na Copa do Mundo.

O Brasil perdeu compactação e não conseguia mais se fechar. Como Neymar ficava solto e não participava, Casemiro acabou ficando sobrecarregado. Na imagem, ele precisa abandonar seu espaço para parar a jogada e a Noruega começa a encontrar espaço.

Brasil fica mais espaçado e lento com Danilo Santos e Neymar — Foto: Reprodução

Brasil fica mais espaçado e lento com Danilo Santos e Neymar — Foto: Reprodução

75 minutos: lado direito começa a ficar exposto com Endrick como ponta

O novo esquema fez o Brasil ficar mais frágil pelo lado direito. Apesar de jogar como ponta no Lyon, Endrick não retornava para cobrir Danilo, como Rayan fazia. A sequência do lance acima já mostra o atacante longe de defesa.

Endrick não retorna e Brasil passa a sofrer na defesa — Foto: Reprodução

Endrick não retorna e Brasil passa a sofrer na defesa — Foto: Reprodução

Quatro minutos depois, o mesmo problema. Ao invés de se defender num 4-4-2 bem compacto, o Brasil começou a se defender com apenas sete jogadores. A Noruega sentiu as brechas e começou a explorar a falta de proteção dos laterais. A imagem aqui mostra

Noruega ataca. Nenhum dos pontas brasileiros volta para marcar e proteger o lateral. — Foto: Reprodução

Noruega ataca. Nenhum dos pontas brasileiros volta para marcar e proteger o lateral. — Foto: Reprodução

78 minutos: Ancelotti percebe lado direito exposto e tenta corrigir com Éderson

A comissão técnica de Carlo Ancelotti, tão elogiada pela observação contra o Japão, viu tudo isso que você leu. Não é por acaso que o treinador decide colocar Éderson aos 77 minutos. O volante, que pode jogar como lateral, entrou para preencher o lado direito e não deixar Endrick tão sobrecarregado.

Se no papel era um bom plano, na prática foi um desastre.

Éderson entrou sem saber qual espaço ocupar. Primeiro para o centro e depois para a direita. Na imagem abaixo, Gabriel Magalhães aponta o braço para a lacuna no lado direito, com Endrick e Danilo sobrecarregados.

Éderson demora a "entrar" no jogo e deixa lado direito desprotegido — Foto: Reprodução

Éderson demora a “entrar” no jogo e deixa lado direito desprotegido — Foto: Reprodução

79 minutos: Primeiro gol nasce justamente pelo lado exposto

O gol nasce justamente na direita. A Noruega já estava atacando bastante por ali, explorando a escolha de Ancelotti por não ter mais Rayan e sim Endrick. E a tragédia se desenha: Haaland começa a ter espaço. A imagem abaixo mostra três erros táticos:

  • Éderson demora a dobrar a marcação e deixa Endrick exposto
  • Casemiro vira o corpo para compensar o lado direito e deixa Haaland entrar sozinho
  • Danilo Santos não cobre Casemiro nem protege o lado esquerdo, onde Odegaard aparece livre
Primeiro gol da Noruega nasce de falha de recomposição — Foto: Reprodução

Primeiro gol da Noruega nasce de falha de recomposição — Foto: Reprodução

Essa série de falhas é complementada por mais uma: de Danilo, do Flamengo. Com a jogada já na área do Brasil, o defensor deveria marcar a bola eou fazer um bloqueio para evitar o cruzamento. Observe que Éderson até chega e coloca os braços para evitar o pênalti. Tudo para bloquear o cruzamento que encontra Haaland, que bate Gabriel Magalhães facilmente.

No primeiro gol, Danilo não marca a bola e deixa o cruzamento ser feito — Foto: Reprodução

No primeiro gol, Danilo não marca a bola e deixa o cruzamento ser feito — Foto: Reprodução

81 minutos: Brasil se desespera e substitutos de Ancelotti ficam sem função

Se o emocional foi o grande trunfo contra o Japão, o que se viu após o gol da Noruega foi um Brasil confuso, nervoso e abusando dos cruzamentos com apenas dez minutos para buscar o empate.

Neymar tinha a função de buscar a bola no sistema. O problema é que Danilo Santos e Éderson não avançavam para preencher a área nos cruzamentos. Quando ele fazia isso, os volantes precisavam apoiar como Casemiro faz no lance. Faltava profundidade aos ataques brasileiros pela pouca presença na área.

Brasil perdeu profundidade com as mudanças de Ancelotti — Foto: Reprodução

Brasil perdeu profundidade com as mudanças de Ancelotti — Foto: Reprodução

89 minutos: o desastre acontece com mais um gol da Noruega

Sem o apoio dos volantes e um centroavante de origem – estranhou a convocação de Igor Thiago para não ser usado justamente nesse momento – o Brasil ficou exposto. Aos 89 minutos, um tiro de meta cobrado rápido pega a defesa brasileira de surpresa. Haaland, como é de se esperar, vence pelo algo.

Veja como a seleção de Ancelotti está completamente desorganizada:

  • Casemiro, o primeiro volante, não volta a tempo porque era o único a apoiar
  • Éderson demora a perceber o perigo e não retorna para proteger a defesa
  • Danilo Santos erra o “timing” e não retorna para proteger a defesa
Noruega cobra tiro de meta rápido e Haaland vence pelo alto — Foto: Reprodução

Noruega cobra tiro de meta rápido e Haaland vence pelo alto — Foto: Reprodução

Quando a bola chega em Haaland, o Brasil recompõe sem jogadores do meio para dobrar a marcação. Danilo comete o mesmo erro do primeiro gol: escolhe proteger o espaço ao invés de ir na bola. Ele dá tanto espaço que Haaland teve tempo de dominar, trocar a perna e chutar sem chances para Alisson evitar o 2 a 0.

Danilo falha no lance do segundo gol — Foto: Reprodução

Danilo falha no lance do segundo gol — Foto: Reprodução

Lições? Agora é recomeçar

Os nomes dos jogadores aparecem grifados ao longo desta análise não para individualizar a culpa, mas sim para ressaltar que não há um só culpado. O futebol é coletivo. Não dá para afirmar que outro caminho terminaria em classificação.

O que temos são os fatos. Até os 66 minutos, o Brasil executava o plano de Carlo Ancelotti: tinha menos posse, mas criava as melhores chances, controlava Haaland e levava mais perigo que a Noruega. As entradas de Neymar, Danilo Santos e, depois, Éderson mudaram completamente a estrutura da equipe.

Ancelotti diz que Brasil mereceu vencer a Noruega

Ancelotti diz que Brasil mereceu vencer a Noruega

O 4-3-3 com Neymar centralizado, Endrick pela direita e Éderson no meio nunca havia sido utilizado durante a Copa. Martinelli, Rayan, Matheus Cunha e Bruno Guimarães deixaram o campo sem problemas físicos. Foram todas escolhas de Ancelotti, assim como a cobrança do pênalti por Bruno Guimarães.

Em um jogo decidido nos detalhes, as decisões mais importantes partiram do treinador. E todas elas foram extremamente equivocadas.

Carlo Ancelotti Brasil Noruega Seleção — Foto: Jeenah Moon/Reuters

Carlo Ancelotti Brasil Noruega Seleção — Foto: Jeenah Moon/Reuters

O futebol segue sem culpados individuais. Mas se há que apontar um, são na verdade três: as mudanças que desconfiguram um Brasil que nunca chegou a jogar bem sob seu comando, mas mostrava uma faceta competitiva muito atribuída à comissão técnica. Contra a Noruega, nem isso.

É hora do Brasil olhar para fora do campo. Há muito o que aprender: basta não copiar o ciclo tumultuado e desorganizado, com Ancelotti como bombeiro de última hora, para mais uma Copa do Mundo.

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